5.7.07

John Lennon - Plastic Ono Band (1970)


"John Lennon/Plastic Ono Band" é o primeiro álbum solo de estúdio do ex-Beatle John Lennon. Antes dele, John havia lançado um álbum ao vivo com a Plastic Ono Band, supergrupo de rock com influências de arte vanguardista que teve, entre outros, em sua formação, os bateristas Ringo Starr e Alan White (Yes) e Eric Clapton, e também lançado outros três álbuns experimentais gravados com sua namorada Yoko Ono, incluindo "Unfinished Music No. 1:Two Virgins", cuja polêmica e famosa capa retrata Lennon e Ono nus, e que teve muitas cópias apreendidas por terem sido consideradas "obscenas", e as que não foram apreendidas foram vendidas em envelopes de papelão. Todos esses discos foram lançados antes da separação dos Beatles, mas já eram projetos-solo de Lennon.

John teve uma infância dificílima, tendo sido criado por sua tia Mimi, já que seu pai, que era marinheiro, abandonara a família quando John era muito novo, e sua mãe, Julia, fora morar com um namorado, que tinha como condição que seu filho John (com cinco anos na época) não fosse morar com eles, e por isso, Julia deixara John com sua irmã Mimi. Embora visitasse a casa de Mimi sempre, Julia era mais como uma irmã mais velha do que como uma mãe para John, o ensinando a tocar o banjo, e apresentando a ele o Rock n' Roll de Elvis Presley. Como se isso não bastasse, durante a adolescência de John, sua mãe Julia morreria atropelada por um policial bêbado a caminho da casa de Mimi, onde visitaria John. O menino nunca superou o trauma triplo de primeiro ser abandonado pelo pai, e depois de perder a mãe duas vezes, e cresceu um adolescente amargo, violento e infeliz.

John e Yoko, logo após o fim dos Beatles, em 1970, decidiram experimentar a "Terapia Primal" do Dr. Arthur Janov, que prega que para que o paciente consiga superar seus traumas, ele deveria entrar completamente em contato com suas tristezas e traumas mais profundos, e regredir a um estado mais primitivo, simples e sincero, quase infantil, para então abraçar essa tristeza e viver toda essa dor, ao invés de se reprimir ou se fazer de forte, pois fazendo assim, absorvemos essas coisas ruins, e agregamos à nossa personalidade todas essas emoções, gerando um acúmulo de tensão na nossa vida, nos deixando amargos, mal resolvidos ou "bloqueados emocionalmente".

John decidiu fazer de seu novo disco um veículo para sua catarse emocional, tratando abertamente de temas pessoais, expondo seus sentimentos, medos e dores de uma maneira quase confessional, com a esperança de superar seus traumas, e se libertar.

O álbum tem uma sonoridade crua e simples, na maior parte das vezes contando somente com a guitarra ou piano de John, o baixo de Klaus Voorman (amigo pessoal dos Beatles desde a época de Hamburgo, que inclusive desenhou a capa do disco Revolver), e a bateria (muito bem tocada, por sinal) de Ringo Starr. Os arranjos são muito simples, quase que como se tivessem sido feitos assim para que o ouvinte preste atenção nas letras e na voz de John, que passam com muita sinceridade e intensidade seus conflitos e dores. Incrivelmente, o álbum foi produzido por Phil Spector, famoso por seus arranjos grandiosos e densos, com muitas "camadas de som", por isso chamados de "Wall of Sound" (Phil recentemente esteve em destaque devido a acusações de homicídio).

A primeira faixa, "Mother" é com certeza a tradução de sentimentos para a linguagem da música mais sincera e profunda que já ouvi na vida. Ao ouvir John destruindo sua garganta gritando repetidamente do fundo do peito "Mama don't go! Daddy come home!", e conhecendo a história de vida de Lennon, é impossível não ficar com os olhos cheios de lágrimas, e reconhecer naqueles gritos um menino carente que só quer o carinho e atenção dos seus pais.

O disco segue com a otimista "Hold On" (cookie!), e a raivosa "I Found Out", que conta com um vigoroso trabalho de bateria de Ringo Starr.

A quarta faixa, "Working Class Hero" é uma das mais conhecidas do trabalho de Lennon, contando somente com John e seu violão, cantando contundentes letras abertamente políticas que influenciariam o movimento punk mais tarde naquela década. Outra curiosidade sobre ela é que foi uma das primeiras músicas a conter a palavra "fuck".

O álbum continua com a depressiva e emotiva "Isolation" e "Remember", com seu ritmo hipnótico, piano sólido, introdução quebrada, e seu final inesperado, onde John evoca Guy Fawkes e a "conspiração da pólvora", terminando a canção com a frase "remember, remember, the fifth of november" (quem tiver visto o filme "V de Vingança" sabe do que estou falando) e uma explosão que faz os desavisados saltarem da cadeira (vocês leitores da Concha considerem-se avisados).

Em seguida vem a simples, irresistível e doce balada "Love" que começa com um fade-in do piano (curiosamente tocado por Phil Spector), e possui uma harmonia muito bonita. "Well Well Well" dá continuação ao disco com seu som pesado e raivoso, além de mais gritos destruidores de garganta de Lennon.

"Look At Me" lembra "Dear Prudence" e "Julia" (ambas do álbum branco dos Beatles) pelo dedilhado do violão (que John aprendeu com Donovan em 1968, em sua estada na Índia com os Beatles, para o estudo da Meditação Transcedental) e conta com letras introspectivas, embora seja no final das contas uma balada de amor.

"God" é a penúltima faixa do disco, e como o título sugere, se trata de religião. Ela é um manifesto onde Lennon diz não crer na existencia de Deus como uma entidade, e que as pessoas dão importância grande demais à "entidade" e de menos aos ensinamentos morais, que seriam o que importa de fato na religiosidade. Em seguida, ele lista diversos ídolos em que não acredita (incluindo aí Jesus, Hitler, Elvis, Buda, Kennedy e até mesmo os próprios Beatles, o que foi um balde de água fria para aqueles que tinham esperança na volta dos Beatles), e diz somente acreditar em si mesmo e em sua esposa, Yoko Ono.

Essa canção contém o famoso verso "The dream is over" que sintetiza o sentimento de fracasso dos idealistas da geração dos anos 60, que queriam mudar o mundo, e se viram fracassados e impotentes.

Billy Preston (que morreu ano passado) toca piano nessa faixa (ele tocou em algumas gravações dos Beatles e na All-Starr Band de Ringo).

O álbum termina com a pequena e mórbida "My Mummy's Dead", que é a única música do álbum que eu não gosto (por causa da morbidez e sonoridade sombria que me dão certo mal-estar).

A reedição do álbum em CD conta com duas faixas bônus que eu não vou comentar pois destôam completamente do álbum, que nesse caso não é só uma compilação de músicas, mas sim um conjunto maior, com uma mensagem e conteúdo coerentes.

Plastic Ono Band é na minha opinião o melhor álbum de John Lennon. É minimalista, sincero, cru, emocionalmente doloroso. É Lennon se despindo, traduzindo todos os seus traumas e sentimentos na íntegra em forma de música.

Os pontos altos do álbum ficam por conta do grito desesperado pelo amor materno de "Mother", a politica e contundente "Working Class Hero", a linda "Love", e a polêmica "God".

Link para baixar o álbum:

4 comentários:

Anônimo disse...

Sinceramente, o melhor post desde o começo - e não estou desmerecendo os demais, afinal, gostei muito de todos. Me fez baixar o CD e escutá-lo por completo e reler novamente o post. Aliás, quando você escreveu sobre o Ringo, eu fui lá prestar atenção de forma criteriosa - posso não executar muito bem, mas saber o que está sendo feito, eu sei - e gostei muito do que ouvi.
Parabéns pelo post! Aguardo ansiosamente pelo próximo.

Abração!

Garotos-bolha disse...

Álvaro aqui.
Pô, eu já fui mediador dessa comunidade.. hahahaha..
Maneiro o post, mas você precisa publicar mais coisas no blog...
Abraço

Anônimo disse...

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volta a postar, meu bem!